Quando pensamos em grandes guitarristas do rock, é fácil imaginar solos enormes, distorção, amplificadores no limite e músicos querendo provar o que conseguem fazer com seis cordas.
Johnny Marr escolheu outro caminho e em vez de transformar a guitarra em uma competição de velocidade, ele fez dela uma peça fundamental da própria música. Acordes incomuns, arpejos brilhantes, melodias escondidas dentro de outras melodias e aquele som cristalino que você reconhece poucos segundos depois de uma música começar.
Foi assim que um garoto de Manchester ajudou a criar a identidade de uma das bandas mais importantes dos anos 1980 e acabou influenciando boa parte do rock alternativo que veio depois.
Antes de The Smiths
Johnny Marr nasceu como John Martin Maher, em Manchester, Inglaterra, em 31 de outubro de 1963.
Filho de uma família de origem irlandesa, cresceu em uma cidade que se tornaria um dos centros mais importantes da música britânica. E Manchester realmente estava fervendo. Imaginem Joy Division, Buzzcocks, New Order e toda a movimentação pós-punk ajudavam a transformar a cidade em um enorme laboratório musical. Mas Marr não queria simplesmente repetir o que estava acontecendo ao seu redor.
Suas referências eram surpreendentemente variadas como The Beatles, The Rolling Stones, The Who, Patti Smith, Nile Rodgers, Bert Jansch, The Velvet Underground, The Stooges e os grupos de pop e folk que ouvia quando mais jovem acabariam aparecendo, de formas diferentes, em sua maneira de tocar.
Anos depois, Marr explicaria que parte de sua técnica na guitarra elétrica nasceu justamente da maneira como tocava acordes acústicos: movimentando formas pelo braço do instrumento e procurando pequenas melodias dentro delas.
Era uma maneira diferente de pensar guitarra e ela seria essencial para o que viria depois.
Quando Johnny Marr bateu na porta de Morrissey
Em 1982, Marr decidiu procurar Steven Patrick Morrissey. Ele foi até a casa do futuro vocalista com a ideia de formar uma banda, ele tinha apenas 18 anos, mas sabia muito bem o que queria: criar um grupo que tivesse músicas fortes, identidade própria e que não parecesse apenas mais uma banda daquela geração.
A parceria funcionou, com Andy Rourke no baixo e Mike Joyce na bateria, nascia The Smiths.
A banda duraria poucos anos, mas poucos anos seriam suficientes.
A guitarra que virou a segunda voz do The Smiths
Existe algo interessante nas músicas do The Smiths, tente ouvir uma delas ignorando a voz de Morrissey.
É praticamente impossível não perceber que a guitarra de Johnny Marr parece conversar com a música.
Em This Charming Man, ela corre.
Em There Is a Light That Never Goes Out, ela cria atmosfera.
Em Bigmouth Strikes Again, ganha força e movimento.
Em The Headmaster Ritual, parece haver várias guitarras acontecendo ao mesmo tempo.
E em How Soon Is Now?, Marr transforma efeitos e tremolo em uma textura quase hipnótica.
Esse talvez seja o grande segredo de Johnny Marr, ele não pensava apenas:
"Qual solo eu posso colocar aqui?"
Pensava:
"O que essa música precisa?"
Sua guitarra poderia funcionar como ritmo, melodia, textura e até como uma segunda voz.
Por que o som de Johnny Marr é tão diferente?
Uma das características mais marcantes de Marr é o uso de arpejos e acordes pouco convencionais. Em vez de depender principalmente dos tradicionais power chords do rock, ele explorava diferentes posições pelo braço da guitarra, cordas soltas e sobreposições e o resultado eram harmonias que soavam grandes sem necessariamente serem pesadas.
Outro elemento importante era a gravação, Marr frequentemente sobrepunha diferentes partes de guitarra para criar uma única textura.
O ouvinte poderia imaginar que estava escutando apenas uma guitarra extremamente complexa quando, na verdade, várias camadas estavam trabalhando juntas.
E havia uma regra não escrita: a música vinha antes da técnica.
Marr tinha habilidade suficiente para transformar uma canção em demonstração técnica, mas preferiu fazer justamente o contrário. Usou técnica para fazer a música parecer simples.
This Charming Man: alguns segundos que mudaram o indie
Se existe uma música capaz de apresentar Johnny Marr para alguém que nunca ouviu The Smiths, provavelmente é This Charming Man.
O riff inicial praticamente resume sua filosofia. É brilhante, rápido, melódico e imediatamente reconhecível.
Mas tente tocá-lo corretamente e de repente aquela guitarra aparentemente leve deixa de parecer tão simples. Esse contraste se tornaria uma das assinaturas de Marr: fazer partes sofisticadas soarem naturais.
Décadas depois, guitarristas continuariam tentando entender aqueles acordes e movimentos.
The Queen Is Dead e uma banda no auge
Em 1986, The Smiths lançaram The Queen Is Dead.
O álbum mostrou talvez a versão mais completa da parceria entre Morrissey e Marr. A guitarra poderia ser agressiva na faixa-título e, pouco depois, absolutamente delicada.
There Is a Light That Never Goes Out, Cemetry Gates, Bigmouth Strikes Again e The Boy with the Thorn in His Side mostram diferentes lados da mesma banda.
Durante aquelas gravações, Marr assumiu uma enorme responsabilidade criativa, participando intensamente da composição, dos arranjos e da produção.
O resultado virou um dos trabalhos mais importantes do rock alternativo britânico.
Então veio o fim
The Smiths terminaram em 1987, Johnny Marr tinha apenas 23 anos.
Imaginem que com essa idade em que muitos músicos ainda estão tentando descobrir sua identidade, Marr já havia participado da criação de um catálogo que continuaria sendo ouvido e estudado décadas depois.
Ele poderia ter passado o restante da carreira tentando recriar The Smiths, mas não fez isso.
Johnny Marr depois de The Smiths
Essa talvez seja uma das partes mais interessantes de sua história. Marr nunca pareceu muito interessado em viver exclusivamente do passado e depois do fim da banda, trabalhou com diferentes músicos e projetos, entre eles The The, Electronic, Modest Mouse e The Cribs.
No Electronic, por exemplo, trabalhou ao lado de Bernard Sumner, do New Order.
Décadas depois, construiu também uma carreira solo consistente, levando para seus próprios discos aquela mistura de guitarras, melodias e experimentação que sempre fez parte de sua identidade.
A carreira de Marr mostra algo raro, ele conseguiu ser uma lenda de uma banda gigantesca sem transformar essa banda em sua única história.
As guitarras de Johnny Marr
Para fãs de equipamento, a coleção de Marr praticamente conta sua biografia.
Rickenbacker.
Fender Jaguar.
Telecaster.
Gibson ES-355.
Les Paul.
Martin.
Mas uma das guitarras mais associadas a ele é a Fender Jaguar.
Curiosamente, durante os primeiros anos do The Smiths, a Rickenbacker também teve um papel fundamental. Marr contou que o instrumento acabou direcionando sua maneira de tocar para arpejos e mudanças harmônicas incomuns e justamente algumas das características que passariam a definir o som da banda.
Para ele, instrumentos não são apenas ferramentas, cada guitarra pode fazer o músico pensar de maneira diferente.
A influência que atravessou gerações
Talvez seja difícil medir completamente a influência de Johnny Marr porque ela se espalhou por diferentes gerações.
Britpop.
Indie rock.
Dream pop.
Rock alternativo.
Bandas dos anos 1990, 2000, 2010 e 2020 continuaram explorando ideias que lembram aquela combinação de guitarras limpas, acordes abertos, arpejos e melodias criada décadas antes.
Dave Keuning, guitarrista do The Killers, por exemplo, já falou sobre a importância das músicas do The Smiths durante os primeiros anos da banda e sobre sua admiração pela maneira como Marr construía acordes e melodias.
E essa influência continua chegando a músicos mais jovens. Não porque todos querem soar exatamente como Johnny Marr, mas porque Marr mostrou que a guitarra pode ocupar um espaço completamente diferente dentro de uma banda.
Johnny Marr em 2026
Mais de quatro décadas depois da formação do The Smiths, Marr continua ativo.
E existe algo especialmente interessante acontecendo em 2026, Uma seleção de quase 100 instrumentos e equipamentos de sua coleção pessoal será oferecida em um leilão organizado pela Christie's em setembro.
Entre as peças estão instrumentos ligados a diferentes momentos de sua carreira, incluindo guitarras utilizadas na época do The Smiths. Parte dos lotes terá recursos destinados a instituições beneficentes britânicas.
O anti-guitar hero que virou guitar hero
Johnny Marr representa uma ideia de rock que combina muito com a própria essência da música alternativa.
Você não precisa seguir a fórmula.
Não precisa tocar como todo mundo.
Não precisa ser o mais rápido.
E nem precisa ocupar o centro do palco para mudar uma geração inteira e as vezes, quatro acordes tocados de uma maneira que ninguém havia pensado antes dizem muito mais.
E talvez por isso, mais de 40 anos depois, alguém ainda coloque This Charming Man para tocar e pense: "Como ele fez essa guitarra soar assim?"
Essa pergunta provavelmente é uma das melhores definições possíveis do legado de Johnny Marr.
Para começar a ouvir Johnny Marr
Se você conhece pouco do trabalho dele, comece por estas músicas:
Com The Smiths:
This Charming Man • There Is a Light That Never Goes Out • The Headmaster Ritual • Bigmouth Strikes Again • How Soon Is Now? • The Boy with the Thorn in His Side
Carreira solo:
The Messenger • Easy Money • New Town Velocity • Spirit Power and Soul
Depois volte e escute tudo novamente prestando atenção apenas nas guitarras.
Você provavelmente vai descobrir músicas completamente novas escondidas dentro das músicas que já conhecia.
Porque Johnny Marr nunca precisou fazer a guitarra gritar para conseguir ser ouvido.
Johnny Marr no Brasil em 2026: já pode começar a contagem regressiva 🎸
E para quem chegou até aqui pensando que toda essa história pertence ao passado, temos uma ótima notícia:
Johnny Marr está voltando ao Brasil. O guitarrista se apresenta no dia 24 de novembro de 2026, no Tokio Marine Hall, em São Paulo, em uma apresentação única no país.
O show marca o retorno de Marr ao Brasil depois de 11 anos e será sua primeira apresentação solo por aqui. Além da nova fase da carreira, o repertório promete atravessar diferentes momentos de sua trajetória e incluir clássicos do The Smiths, como This Charming Man, How Soon Is Now?, There Is a Light That Never Goes Out, Bigmouth Strikes Again e Panic.
E aí vem a pergunta mais importante…
Já pensou no look para o show?
A gente veste.
→ Conheça a camiseta Johnny Marr na Astrozen.

Johnny Marr em São Paulo
📅 24 de novembro de 2026
📍 Tokio Marine Hall — São Paulo/SP
🚪 Abertura dos portões: 20h
🎸 Show: 21h30
Agora é escolher a camiseta, montar o look e começar a contagem regressiva. 🤘
Fontes e referências
As informações deste artigo foram pesquisadas e reunidas a partir de entrevistas, biografias e publicações especializadas em música:
- Johnny Marr — site oficial: biografia, carreira solo, discografia e trajetória profissional.
- The Smiths — Encyclopaedia Britannica: história da banda, formação e importância para o rock britânico.
- Guitar World — entrevistas com Johnny Marr: técnica de guitarra, influências, equipamentos, composição e histórias das gravações do The Smiths.
- Fender — Johnny Marr: informações sobre sua relação com a Fender Jaguar, equipamentos e características de seu estilo.
- Christie's — The Guitar Collection of Johnny Marr: informações sobre instrumentos e equipamentos históricos pertencentes ao guitarrista.
- Johnny Marr — Set the Boy Free: autobiografia publicada em 2016, com relatos sobre sua infância, formação do The Smiths e carreira musical.
- The Smiths — discografia: The Smiths (1984), Meat Is Murder (1985), The Queen Is Dead (1986) e Strangeways, Here We Come (1987).
